66 - Oração de Fernando Pessoa ao Absoluto no seu aspecto Fenomênico Transcendente.
Oração de Fernando Pessoa ao Absoluto no seu Aspecto Fenomênico Transcendente.
1 - O Ser Humano Polimata e Magistral.
Fernando António Nogueira Pessoa (1888 — 1935) foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, espiritualista, místico, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português.
Um dos maiores gênios poéticos de toda a nossa Literatura e um dos poucos escritores portugueses mundialmente conhecidos.
A sua poesia acabou por ser decisiva na evolução de toda a produção poética portuguesa do século XX.
Se nele é ainda notória a herança simbolista, Pessoa foi mais longe, não só quanto à criação (e invenção) de novas tentativas artísticas e literárias, mas também no que respeita ao esforço de teorização e de crítica literária.
É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da Vida.
É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação plausível para ter criado os célebres heterónimos - Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com o semi-heterónimo Bernardo Soares.
- Adaptado de https://www.youtube.com/@mundodospoemas
2 - O Poema: Senhor, que és o Céu e a Terra, e que és a Vida e a Morte!
Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo estás — (o teu templo) — eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
[...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.
- Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa.
3 - Narração do Poema em Vídeo.
Obra Prima de Filosofia.
A produção de um gênio que condensou milênios de busca das filosofias e das religiões em um pequeno e grande poema.
4 - Significado Profundo do Poema.
Esse poema de Fernando Pessoa é uma das expressões mais puras e profundas de sua busca espiritual, escrita em uma fase de intensa transição filosófica (por volta de 1912). Distanciando-se das concepções religiosas antropomórficas tradicionais, Pessoa desenha aqui uma espiritualidade mística, íntima e visceral.
O significado profundo do texto pode ser compreendido através de três grandes pilares filosóficos:
4.1. O Absoluto Fenomênico (Panteísmo e Panenteísmo)
No primeiro bloco, Pessoa desconstrói a ideia de um Deus antropomórfico: um soberano concebido a imagem e semelhança do próprio homem, embora com poderes superlativos, que maneja as rédeas do universo, que existe fora dele, que é criação sua, que busca louvor, veneração e obediência, julgando, tomando decisões, atendendo ou negando os pedidos dos homens em uma baganha moral. Para Pessoa, no entanto, o divino é o tecido da própria realidade:
"O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas..."
Isso é panteísmo (Deus é tudo) combinado com panenteísmo (tudo está contido em Deus, mas Deus também habita o vazio, o "onde nada está"). Ao dizer que o templo de Deus é o próprio universo ("eis o teu corpo"), ele anula a necessidade exclusiva de intermediários, igrejas ou rituais formais. A conexão com o Absoluto é direta e se dá através da própria consciência, da substância e da existência.
4.2. A Natureza como Espelho da Alma (Purificação Alquímica)
Ao pedir para ser "puro como a água e alto como o céu", Pessoa faz um apelo que lembra os processos alquímicos de purificação da mente.
As estradas dos pensamentos sem lama: Uma mente livre de preconceitos, ilusões e mesquinharias terrenas.
As lagoas dos propósitos sem folhas mortas: O desejo de manter suas intenções e vontades vivas, sem o peso do passado, da estagnação ou do arrependimento (as "folhas mortas" que sufocam a água limpa).
Ele pede os sentidos ("vista", "ouvidos", "mãos") não para o ganho pessoal, mas para decodificar a presença divina no cotidiano. O trabalho se torna um ato sagrado quando feito "em teu nome", em sincrônia com o princípio mecânico central da ordem cósmica - o amor.
4.3. O Paradoxo Final: "Livra-me de mim"
O ápice e a chave de ouro de toda a prece está na última frase: "Senhor, livra-me de mim."
Para Fernando Pessoa, o "eu" era uma prisão terrível. Ele era um homem fragmentado em múltiplos heterônimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis), alguém que sofria (sorte nossa...!) com o excesso de autoconsciência e intelectualização.
Pedir para ser "livre de si mesmo" significa:
Silenciar o ego: Libertar-se das vaidades, dos medos e das ambições pequenas que nos separam dos outros.
A dissolução no Todo: É o desejo místico de cessar a dor de ser um indivíduo isolado e, finalmente, fundir-se com o Absoluto. Para Pessoa, a verdadeira liberdade não era fazer o que queria, mas libertar-se da "tirania" dos desejos da sua própria mente.
É uma obra que transita entre a filosofia hermética, o misticismo oriental e o desespero existencial típico de Pessoa. Ele não pede milagres materiais, bens ou riquezas; ele pede expansão de consciência para suportar e honrar a existência.
5 - Outros Vídeos desse Poema de Fernando Pessoa.
5 - Outros Vídeos de Poemas e Frases de Fernando Pessoa.
Magistral Poema de Fernando Pessoa que afirma que não somos mais importantes que uma Flor.
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