49 - Parâmetros Determinantes da Personalidade.

 

1 - Concepção da realidade e os mundos interpretativos

Ontologia da Linguagem e Echeverría.

Num outro giro filosófico, será abordada uma nova concepção na consideração da realidade, na medida em que se desloca a perspectiva de conhecimento da essência da coisa observada para a perspectiva do conhecimento do observador.

O conhecimento da coisa-em-si não é, assim, objeto de preocupação principal, mas como o observador observa e interpreta o objeto observado. Considera que se podem alcançar apenas as representações que o sujeito faz do objeto observado e não a coisa-em-si. A principal preocupação, assim, é conhecer o observador (a personalidade) que fala sobre o objeto, sua condição de ser humano, distinções e suas interpretações sobre o objeto, em vez de procurar conhecer a essência do objeto sobre o qual se fala.

Como se estudou de Echeverría (1997, p. 30), em cada observação sobre um fato ou objeto se desvenda (se dá a conhecer) a alma (entendida como a forma particular de ser) de quem fala. Quando se fala, revela-se o observador que se é. Os seres humanos vivem, assim, em um mundo de interpretações ou representações.  Echeverría (1997, p. 40) traduz essa idéia com as seguintes palavras: “Não sabemos como as coisas são. Somente sabemos como as observamos ou como as interpretamos. Vivemos em mundos interpretativos”.

Esse deslocamento do centro de gravidade da inquirição do conhecimento das coisas para o conhecimento do observador, permite ao observador não só questionar como as coisas lhe parecem ser, mas também questionar o tipo de observador que é nos diversos domínios em que se constitui. Inclusive, o juízo que o sujeito faz sobre si mesmo, enquanto ser humano, delimita inclusive a sua capacidade de ação. Daí a importância de considerar o que foi estudado no artigo anterior: modelo de constituição do observador.

Referência

ECHEVERRÍA, Rafael. Ontologia del Lenguaje. 4ª ed. Santiago, Chile: Dolmen Ediciones, 1997.



Representação e Visão Particulares da Realidade

A figura, a seguir, ilustra a diferença de perspectiva que cada observador, com suas distinções, concepções, juízos próprios, sua história, têm do mundo, dos outros e de si mesmo no processo de observação, constituindo uma representação ou visão interpretativa do conjunto das impressões que recebe.

Essa figura se propõe a traduzir que, recebendo impressões do mundo sensível, diferentes observadores, embora compartilhem uma “realidade comum”, pois são dotados do mesmo padrão biológico de sistema nervoso, constituem representações ou visões diferentes desse mundo observado. 

Na figura, cada observador está dentro de um “círculo” particular, que traduz o âmbito da representação ou visão de mundo projetada, que são os mundos interpretativos onde vivem.



2 - Parâmetros determinantes na particular percepção-representação da Realidade pelo Observador

A percepção e concepção que a Personalidade tem da "Realidade" não é um fenômeno isolado, mas o resultado de um cruzamento complexo entre o que herdamos biologicamente, as ferramentas linguísticas que possuímos, a cultura em que estamos inseridos e a nossa história de vida pessoal.

A seguir, apresenta-se uma descrição detalhada de cada parâmetro determinante na particular percepção-representação da Realidade pelo Observador.

1. Parâmetros Biológicos

Esta categoria refere-se às bases físicas e orgânicas que limitam e possibilitam a nossa interação com o mundo.

  • Espectro de percepção sensorial humana: Define os limites dos nossos sentidos (o que conseguimos ouvir, ver ou sentir).

  • Padrão biológico do sistema nervoso humano: Refere-se à estrutura neurológica comum à espécie que processa as informações.

  • Particularidades e condições típicas de cada biologia (fatores fenótipos): As variações individuais de saúde, constituição física e estado do corpo.

  • Fatores Genéticos: A herança biológica que predispõe certas características e comportamentos.

2. Parâmetros Linguísticos

Trata de como a linguagem estrutura o pensamento e a forma como comunicamos a realidade.

  • Propriedades e limitações das categorias linguísticas humanas: Como a estrutura da linguagem em si limita o que pode ser expressado.

  • Língua Máter: O idioma nativo, que oferece os filtros culturais e semânticos iniciais.

  • Linguagens próprias de cada domínio de atividade humana: Termos técnicos e jargões específicos de profissões ou áreas de estudo (medicina, engenharia, artes, etc.).

3. Parâmetros Culturais

Esta seção aborda as influências externas e coletivas que moldam a visão de mundo de um grupo.

  • Experiências compartilhadas: Eventos históricos ou sociais vividos em conjunto por uma comunidade.

  • Paradigmas científicos: Os modelos de verdade aceitos pela ciência em determinada época.

  • Ciências, filosofias, artes e religiões: Os sistemas de pensamento e crença que oferecem respostas sobre a existência.

  • Os conceitos puros a priori (teoria kantiana): Refere-se às estruturas mentais inatas (como tempo e espaço) que organizam a experiência, conforme a filosofia de Immanuel Kant.

  • Folclore, mitologias e crenças coletivas: O imaginário popular e as histórias que dão sentido à cultura.

4. Parâmetros Pessoais

Refere-se à subjetividade individual e à trajetória única de cada pessoa.

  • Crenças e valores: O código moral e as certezas internas que guiam as escolhas.

  • Vivências: A história de vida individual e os eventos marcantes de cada um.

  • Fatores socio-culturais: Como a posição social e o meio em que a pessoa vive influenciam sua visão.

  • Psicologia: A estrutura emocional, traumas, temperamento e saúde mental.

  • Conhecimentos e experiências adquiridos: O repertório de aprendizado acumulado ao longo do tempo.

  • Competências: As habilidades práticas e capacidades que o indivíduo desenvolveu.


Parâmetros Determinantes

Fluxograma detalhado sobre os Parâmetros Determinantes que moldam a percepção e a representação da realidade pelo indivíduo. O diagrama está organizado nas quatro grandes categorias, cada uma com seus sub-elementos específicos, que já foram estudadas anteriormente.

 

NOTAS

1) Rafael Echeverría
É um sociólogo chileno, doutor em Filosofia e um dos pensadores mais influentes no campo do desenvolvimento humano e organizacional contemporâneo. Ele é mundialmente reconhecido como o "pai" da Ontologia da Linguagem, a base teórica para o que hoje conhecemos como Coaching Ontológico.

2) Ontologia da Linguagem

A Ontologia da Linguagem, baseada na obra de Rafael Echeverría, propõe que o ser humano se constitui através da linguagem. Diferente da visão tradicional, ela postula que a linguagem não apenas descreve a realidade, mas a cria. Principais conceitos: 

1. Linguagem Geradora: Através da fala e da escuta, criamos identidades e coordenamos ações. 

2. O Ser como Processo: O ser humano não é fixo, mas se transforma através de suas conversas. 

3. Atos Linguísticos: O uso de afirmações, declarações (como o 'não' ou o 'perdão') e promessas como ferramentas de construção de mundo. 

Essa filosofia é fundamental para o Coaching Ontológico, buscando mudar o 'observador' para gerar novos resultados na vida e nas organizações.

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