16 - Cruz Franciscana e o Tao: coincidência ou inspiração comum?
Coincidência ou Inspiração
Seria uma mera coincidência que a Cruz adotada por Francisco, Cruz Tau (ou Tau Franciscano), tenha aproximações fonéticas com a pronúncia dos caracteres latinos Tao?
Embora se tratem de tradições culturais segmentadas e ninguém ainda, ao que sabemos, tenha apresentado essa tese, será que em tempos ancestrais procedam de uma mesma fonte de inspiração superior, cujo significado e ligação se perdeu na passagem das eras?
A similaridade dos fundamentos "filosóficos" e "práticos" pode sugerir que procedam de uma mesma corrente de inspiração nos Campos morfogênicos, históricos e ideosentimentais do Infinito?
É fundamental ressaltar que esta é uma reflexão especulativa e não há evidências históricas que liguem diretamente a Cruz Tau de Assis ao Taoísmo chinês. No entanto, a convergência simbólica nos convida a uma reflexão mais profunda...
Ideograma do Tao
Sabemos que a tradução do ideograma "Tao" (道) para a grafia que conhecemos em caracteres latinos (como "Tao" ou "Dao") vem de sistemas de romanização da língua chinesa.
Cruz Tau (ou Tau Franciscano)
A Cruz Tau é um símbolo cristão antigo, adotado e popularizado por Francisco de Assis.
A letra grega "Tau" (T) era a última letra do alfabeto hebraico e já era um símbolo presente nas escrituras bíblicas, especialmente no livro de Ezequiel (Ez 9,4), onde representa um sinal de proteção para aqueles que se arrependem e são fiéis a Deus. No tempo de Francisco, o Papa Inocêncio III também incentivava seu uso como sinal de penitência e conversão.
Para Francisco, o Tau era um símbolo de predestinação e salvação, lembrando a vitória de Cristo sobre o mal. Ele o utilizava como um sinal concreto de sua adesão ao Evangelho, de penitência e de serviço aos mais pobres. Representa a busca de uma vida de conversão, de se configurar com Jesus Crucificado e de viver em harmonia com os ensinos do Evangelho.
A forma de "T" lembra a cruz na qual Jesus morreu, e seus traços simbolizam a busca do divino (vertical), nos "céus", e a extensão ou projeção terrena da solidariedade (horizontal), no "mundo".
O Conceito de Tao: Absoluto, Origem e Caminho
O ideograma chinês Tao (道) é traduzido literalmente como "Caminho", "Via" ou "Estrada". Contudo, em seu sentido filosófico central, ele transcende o mero significado de rota para assumir uma dimensão metafísica dupla, que é a espinha dorsal do Taoísmo.
1. O Tao como Absoluto (Origem e Totalidade)
Neste primeiro sentido, o Tao é o Absoluto, a Origem primordial e a Essência de todas as coisas. O primeiro verso do Tao Te Ching (O Livro do Caminho e da Virtude), de Lao Zi (também grafado como Lao Tzu ou Lao Tse), expressa essa natureza inefável:
"O Tao que pode ser nomeado não é o Tao eterno. O nome que pode ser dito não é o Nome eterno."
Esta passagem indica que o Tao, em sua totalidade:
É Inefável: Está além da linguagem, da forma, da razão humana e de qualquer conceito limitador.
É o Não-Ser e o Ser: É a fonte de toda a existência (o Ser) e, ao mesmo tempo, o Vazio primordial (o Não-Ser) do qual tudo emerge.
É o Princípio Cósmico: É a ordem subjacente e natural do Universo. É a lei que garante o fluxo e o ritmo da Natureza, incluindo o eterno movimento de opostos complementares (Yin e Yang).
É a Totalidade: É a união do criador, do criado e da criação. É a essência que está em tudo, mas que não se limita a nada.
O Tao é, portanto, o motor silencioso e eterno que faz com que o universo seja como é.
2. O Tao como Caminho (Ato de Viver e Método)
Em seu segundo sentido, o Tao é o Caminho prático, a Via que o ser humano deve trilhar para se alinhar com o Absoluto. É o método de vida que leva à harmonia.
Trilhar o Tao significa:
Viver em Sincronia: Adotar um modo de vida que segue o fluxo e a ordem natural do universo, sem esforço, apego ou resistência.
Praticar o Wu Wei (Não-Ação): Não se trata de inércia, mas de "ação sem esforço" ou "ação que está em harmonia com a natureza". É a sabedoria de fazer o suficiente, no tempo certo, sem a interferência do ego ou de desejos excessivos.
Busca pela Simplicidade: O Caminho exige o desapego das formas, dos nomes e das distinções ilusórias (bom/mau, bonito/feio). A meta é o retorno ao estado natural e à pureza original.
A Convergência dos Caminhos: Oração Franciscana e a Harmonia Taoísta
Embora o Tau Franciscano (um sinal cristão de redenção) e o Tao (um princípio filosófico chinês) não possuam ligações históricas diretas, a similaridade de seus fundamentos éticos e práticos é notável, sugerindo uma possível convergência arquetípica na busca humana pelo absoluto.
Esta convergência reside, primariamente, na forma como ambos os caminhos prescrevem o modo ideal de vida.
1. O Caminho Interior: No franciscanismo, o Tau é o sinal da "conversão" (metanoia), um processo contínuo de virar-se para Deus e para o Evangelho, representando o caminho de Cristo. Já no Taoísmo, o Tao é o "Caminho" (Dao), a Via que o indivíduo deve trilhar para se alinhar com a ordem cósmica, sendo o caminho da Natureza. Ambas as tradições exigem uma mudança de direção na vida.
2. O Esvaziamento (Simplicidade): São Francisco de Assis fundamentou sua vida na Pobreza Radical, no despojamento material e na renúncia aos bens para se assemelhar a Cristo. Da mesma forma, o Taoísmo enfatiza a Simplicidade e a Humildade, falando sobre "esvaziar o ego" ou "retornar ao estado não-esculpido" da natureza como essenciais para a harmonia.
3. A Não-Ação (Ação Pura): O ideal franciscano de Obediência e Serviço Desinteressado aos mais pobres reflete uma ação que não é movida pelo ego ou pela ambição pessoal, mas pela vontade divina e pela caridade pura. No Taoísmo, prega-se o Wu Wei (Não-Ação), que não é inércia, mas a ação que flui espontaneamente, sem esforço, sem interferência calculada e em perfeita sintonia com o ritmo natural.
4. A Harmonia (Paz e Unidade): O Tau Franciscano é o emblema de "Paz e Bem" e representa a busca pela Unidade e Reconciliação (com Deus, com os outros, e com a Criação), uma marca registrada de Francisco. Por sua vez, o Tao é o princípio de Harmonia e Equilíbrio (Yin e Yang). Viver em concordância com o Tao é viver em perfeita paz, aceitando o fluxo e o mistério da vida.
5. A Dualidade (Céu e Terra): A forma da Cruz Tau (T) é interpretada como a intersecção de dois mundos: a linha Vertical (o divino, o Céu) e a linha Horizontal (a expansão terrena, a caridade, o mundo). De modo análogo, o Tao manifesta-se no mundo através do Yin e Yang, os polos complementares (Céu e Terra, Ativo e Receptivo) que, juntos, compõem a totalidade. A busca é pela integração dessas dualidades na vida prática.
Conclusão Especulativa
Assim, se o Tau Franciscano é o sinal da busca por um Caminho de Salvação e adesão à lei de Cristo, o Tao é a busca por um Caminho de Harmonia e adesão à lei da Natureza e do Cosmo. Em essência, ambos representam a necessidade humana de encontrar e seguir um princípio orientador para a vida.
A fonética similar (Tau/Tao) pode ser apenas uma feliz coincidência, mas o paralelo nas filosofias de vida é profundo. Em ambos os casos, o símbolo (ou o conceito) orienta o adepto a uma jornada de desapego e alinhamento total com um princípio superior (seja ele o Evangelho ou a Ordem Cósmica), transformando a vida em um caminho de pureza, simplicidade e harmonia.
Será que o Tau e o Tao são, em essência, diferentes expressões culturais de um mesmo Arquétipo Universal do Caminho, que pulsa na consciência humana em todas as eras e tradições? É a sua intuição, caro leitor, que deve responder.








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