15 - Clara e Francisco: Modelos de Unidade-Amor.

O Hino da Unidade em Duas Vidas

Em Assis, no século XIII, desabrochou uma das mais raras e frutíferas parcerias da história espiritual: a de Francisco Bernardone e Clara de Favarone

Eles foram unidos por uma profunda e mútua entrega a um ideal maior. Eles se tornaram ícones de um verdadeiro Modelo de Unidade-Amor, na expressão da colaboração e do ideal de elevação e redenção no Mundo, em um propósito de união que revela a essência da interconexão entre o Ser e o Absoluto.

Súmula Biográfica de Francisco de Assis (c. 1182–1226)

Idade (Ano Aproximado) e Acontecimentos Principais

20 anos (1202) 
Participa da guerra entre Assis e Perúgia. É feito prisioneiro por um ano.
23 anos (1205)  
Ouve o Crucifixo de São Damião ("restaura a Minha casa"). Encontro e beijo no leproso.
24 anos (1206)   
Renúncia à herança paterna perante o Bispo. Inicia a restauração de igrejas.
26 anos (1208)   
Ouve o Evangelho do envio dos Apóstolos. Adota o hábito de Frade Menor e inicia a pregação. Recebe os primeiros companheiros.
27 anos (1209)   
Viagem a Roma e aprovação oral da Regra pelo Papa Inocêncio III.
32 anos (1214)   
Provável início dos encontros frequentes com Clara de Assis.
37 anos (1219)   
Viagem ao Egito e encontro com o Sultão Malik al-Kamil.
42 anos (1224)   
Recebe os Estigmas no Monte Alverne.
43 anos (1225)   
Compõe o Cântico das Criaturas.
44 anos (1226)  
Morte (transitus) na Porciúncula.

Súmula Biográfica de Clara de Assis (c. 1194–1253)

Idade (Ano Aproximado) e Acontecimentos Principais

16-17 anos (1210-1211)
Assiste às pregações de Francisco e tem diálogos com ele.
18 anos (1212)
Fuga da casa paterna na noite de Domingo de Ramos; Consagração na Porciúncula com o corte de cabelos por Francisco.
18 anos (1212)
É transferida para São Damião e é acompanhada por sua irmã, Inês. Início da Ordem das Damas Pobres.
22 anos (1216)
Obtém do Papa Inocêncio III o "Privilégio da Pobreza".
31 anos (1224)
Início da doença que a manteria reclusa por quase trinta anos.
41 anos (1234)
Inicia a correspondência com Santa Inês de Praga, a quem incentiva a fazer de Cristo seu "Espelho".
46 anos (1239)
Luta contra a intervenção papal que visava alterar a regra de pobreza de sua Ordem.
46 anos (1240)
Milagre da Eucaristia, onde defende Assis dos sarracenos com o Santíssimo Sacramento.
59 anos (1253)
O Papa Inocêncio IV aprova a sua própria Regra de Vida (Forma Vitae) dois dias antes de sua morte.
59 anos (1253)
Morte (transitus) em São Damião.

Francisco: a Chama do Sol.

Francisco, filho do rico comerciante de tecidos Pietro Bernardone, viveu uma juventude de ostentação e sonhos de cavalaria. Sua transformação foi um processo marcado por um encontro radical com a dor e a pobreza — simbolizado pelo beijo dado a um leproso e pela visão no crucifixo de São Damião. 

Ao despojar-se de suas roupas diante do bispo, Francisco marcou o início de sua missão de liderança espiritual e exemplo de uma vida que foi um hino cósmico de luz. 

Ele via o mundo como uma Unidade vibrante, onde todas as criaturas — o sol, a lua, os lobos, os pássaros e outros seres — eram membros de uma só unidade universal. 

Francisco brilhou como um sol na noite dos tempos iluminando a humanidade com sua inspiração e exemplo de integração e amor. 

Clara: o Espelho da Lua.

A jovem Clara, de família nobre e destinada a um casamento vantajoso, ouviu a pregação de Francisco e sentiu uma ressonância imediata. Aos 18 anos, na noite de Domingo de Ramos de 1212, ela fugiu de casa, num ato de coragem e renúncia que espelhou e ecoou o ideal de Francisco. 

Na Porciúncula, Francisco cortou seus longos cabelos, selando sua entrada em um caminho de total desapego.

Se Francisco era o arauto que corria pelos caminhos do mundo, Clara se tornou o espelho que refletia o Ideal de Francisco em sua mais pura forma. 

Sua vocação foi a contemplação e o serviço ativo na clausura, onde ela lutou tenazmente para preservar  os princípios de sua Ordem, que se tornou um refúgio e uma plataforma de ascenção para as "Damas" que se fizeram pobres para espelhar o ensino de Cristo, as Clarissas. 

Enquanto Francisco fundava a fraternidade em movimento, como um Sol,  Clara ancorava e espelhava essa espiritualidade, como a Lua, em uma firmeza inquebrantável. Foi, nas palavras de Francisco, sua "plantinha" e seu mais fiel apoio espiritual.

O Cântico das Criaturas

O "Cântico das Criaturas" de Francisco de Assis é um hino ao Absoluto, o Tao, em suas manifestações. 

A criação não é gerada por fora, de uma substância externa, mas é manifestada por dentro, da própria substância da Consciência Cósmica, que se traduz em energia, em um movimento que se condensa em forma. Existimos e nos movemos dentro do Criador e sua criação manifestada. 

Esse Criador não é apenas transcendente, em nosso exterior, mas também imanente, em nosso interior. Podemos percebê-lo nas profundezas de nosso interior como no exterior, nos seres próximos e no infinito. 

O Absoluto é o Tudo-Todo-Uno, o Tao, em que estamos imersos, sem separação, em um Campo Unificado, na Eternidade em nós imanente, a nossa Essência Real e Profunda, e no Infinito, que nos transcende, nas vastidões do Espaço-Tempo e diversidade de manifestações.

A criação do Ser segundo Paulo

Atos 17:28

"Pois nele vivemos, nos movemos e existimos; como também disseram alguns dos vossos poetas: 'Porque dele também somos descendência.'" 

Contexto da Passagem

Esta frase foi dita pelo Apóstolo Paulo em seu famoso discurso no Areópago, em Atenas.

  1. "Nele vivemos, nos movemos e existimos": Paulo usa esta frase para descrever a Onipresença e a Imanência de Deus – a ideia de que Deus não está distante, confinado a templos feitos por mãos humanas (como ele havia argumentado antes), mas é a própria base e sustentação da nossa existência.

  2. Origem Filosófica: É importante notar que, para se conectar com a plateia grega (que incluía filósofos estoicos e epicureus), Paulo citou o poeta grego Epimênides de Creta e, na segunda parte, provavelmente Arato de Solos (no Hino a Zeus). Paulo pega uma ideia filosófica e poética pagã (que originalmente se referia a Zeus, mas em um sentido panenteísta de que Deus permeia todas as coisas) e a aplica ao Deus Criador do cristianismo, validando a ideia de que a verdade sobre a Unidade da Criação é presente e ancestral na concepção humana.

A criação do Ser segundo o Gênisis

Gênesis 2:7

"Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou alma vivente."

Sugere a ideia de que o ser humano é feito de e por Deus. O corpo vem do mundo material (o barro/terra) e a vida vem de Deus (o Sopro/Espírito), unindo assim o físico e o divino no Ser.

O sopro/espírito de Deus habita no nosso interior e nas suas profundezas está a nossa essência divina, não só imortal, mas sobretudo eterna, que é o nosso ser real (não transitório).

A musicalização do Cântico das Criaturas

As duas músicas que apresentaremos celebram o sentido de unidade e amor com o Todo, onde todos os elementos, individuações ou manifestações do Cosmos são reconhecidos não como objetos, mas como irmãos e irmãs (criaturas), dignos de respeito e amor.

1. "Laudato si' mi' Signore" (Louvado sejas, meu Senhor)

Esta é uma obra coral e litúrgica muito conhecida, que utiliza a letra original do Cântico.

  • Composição: Marco Frisina, padre e compositor italiano, renomado por suas obras de música sacra. A música é composta para coral e orquestra e é uma das versões musicais mais populares do Cântico de Francisco.

Relação com o Cântico das Criaturas

A música de Marco Frisina não é uma inspiração, mas sim a musicalização literal do texto de São Francisco. O compositor utiliza o título em italiano antigo (Laudato si' mi' Signore) e a estrutura exata do poema.

Seguem Cenas e Trilha sonora do Filme "Clara e Francisco", com título original em italiano, "Chiara e Francesco", uma minissérie televisiva de 2007, dirigida por Fabrizio Costa, e produzido pela companhia cinematográfica italiana Lux Vide.

A Música "Laudado si' mi Signore" (Louvado sejas, meu Senhor) é de Marco Frisina, padre católico romano e renomado compositor, nascido em Roma em 1954.

Versos em Italiano e Português:



2. Doce é Sentir (Dolce è Sentire)

"Doce é Sentir" é uma canção que se popularizou no Brasil, mas sua origem é na trilha sonora de um filme italiano sobre a vida de São Francisco de Assis.

  • Composição Original (Italiana): A música original é "Dolce è Sentire", composta por Claudio Baglioni e Riz Ortolani para o filme "Fratello Sole, Sorella Luna" (Irmão Sol, Irmã Lua), de Franco Zefirelli (1972).

  • Composição em Português: A versão em português ("Doce é Sentir") foi popularizada por vários artistas religiosos e corais, com letras traduzidas e adaptadas.

Relação com o Cântico das Criaturas

A letra de "Doce é Sentir" é uma paráfrase clara e direta da visão cósmica de Francisco expressa em seu Cântico (em latim: Laudes Creaturarum). O trecho se inspira especificamente na fraternidade universal entre Francisco e os elementos da natureza.

Versos de "Doce é Sentir" (Português):

"O céu nos deste e as estrelas claras,"
"Nosso irmão Sol, nossa irmã Lua,"
"Nossa mãe Terra com frutos, campos, flores,"
"O fogo e o vento, o ar e a água pura,"


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